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Com ficção alinhada à realidade, segunda temporada de "Aruanas" prova que a série é uma das melhores do Globoplay

 

 Produzida no momento certo, Aruanas é uma série dramática com quês de suspense sobre uma ONG que luta contra entidades e empresas que prejudicam, destratam e destroem o meio-ambiente e, consequentemente, a saúde das pessoas que vivem nos locais afetados. Política, necessária e extremamente atual, a segunda temporada da série consegue se aprofundar ainda mais na ficção, ganhando em dramaturgia em relação à temporada anterior. 

    A relação do nosso país com os nossos recursos naturais nunca foi um exemplo a ser seguido. Nos últimos anos, então, é visível o descaso e as intenções com essa mina de ouro natural (a qual é resumida) tão abundante em nossas terras. Aruanas se torna necessária neste sentido por, através da ficção, colocar o público em contato com tal realidade. 

    Fundada e liderada pela ambientalista Luíza (Leandra Leal), pela jornalista Natalie (Débora Falabella) e pela advogada Verônica (Taís Araújo), a ONG “Aruana” é uma importante entidade ativista na luta pela preservação e pelos direitos ambientais. Somam-se às três fortes mulheres, entre outros ativistas, a estagiária Clara (Thainá Duarte), Pontocom (Ravel Andrade), André (Miguel Thiré) e Falcão (Bruno Goya).

    Na primeira temporada (2019), a série retratou a investigação dos membros da ONG a partir de denúncias de atentados à povos indígenas e conflitos relacionados à demarcações de terras na cidade de Cari, no Amazonas. A investigação levou à descoberta de outros crimes ambientais envolvendo uma mineradora liderada por Miguel (Luís Carlos Vasconcellos), ajudada/influenciada pela ambiciosa advogada Olga (Camila Pitanga).


A SEGUNDA TEMPORADA

    Nesta nova temporada – disponível no catálogo da Globoplay desde o último dia 25 –, a investigação centra-se em problemas de poluição no ar, em uma cidade fictícia chamada Arapós, no interior de São Paulo. E é justamente a criação e ambientação desta cidade o maior acerto da temporada.

    O suspense sempre esteve presente na série, desde a primeira cena da temporada anterior. Os próprios criadores, Estela Renner Marcos Risti, a classificam como um “thriller ambiental”. Mas com a cidade de Arapós o clima sinistro e sombrio se intensifica. O lugar, que já foi loco de uma tragédia ambiental no passado, agora se porta como uma cidade-modelo, um exemplo de cuidado com o meio-ambiente e orgulho das pessoas que vivem por lá. Mas tudo não passa de uma farsa para esconder os absurdos que acontecem ali: forte poluição do ar e emissão de gases tóxicos na atmosfera, causando, inclusive, má-formação em fetos e deficiências em crianças nascidas na região. Realidade que é escondida, inclusive, da maioria dos moradores.

    Para a investigação, as Aruanas infiltram na cidade os ativistas Clara e Pontocom, disfarçados como um casal evangélico recém chegado à igreja. O plot dessa investigação interna em uma macabra cidade que parece blindada para sobreviver às aparências é o que mais prende a atenção durante os episódios. Seguem também os conflitos pessoais das protagonistas, a partir dos acontecimentos da primeira temporada. Por conta de tais desdobramentos (que incluem o rompimento da amizade entre Verônica e Natalie), Taís Araújo tem destaque na trama apenas nos episódios finais. Os dois primeiros terços da temporada focam nas personagens de Leandra Leal e de Débora Falabella, que entregam ótimas atuações, como de praxe, administrando a ONG sozinhas.

    A personagem de Camilla Pitanga ganha profundidade com seu envolvimento amoroso com Ivona (Elisa Volpatto) em uma relação que até cativa o público, mas ainda não traz grandes cenas à Camilla, que só se envolve mais diretamente com a trama principal também apenas nos capítulos finais. 


CARINHAS NOVAS

    Além de Elisa Volpatto, a série teve outras aquisições ao elenco: Lázaro Ramos, como Enzo, o popular prefeito da cidade de Arapós, que se envolve romanticamente com uma instável Natalie e que traz dúvidas sobre o quanto realmente sabe a respeito da realidade do lugar que administra; Daniel de Oliveira, como Théo, o filho de um milionário dono de uma rede de frigoríficos que se insere na ONG as ajudando financeiramente e tentando provar fidelidade ao grupo; Rafael Losso, como o pai de uma criança que sente no corpo os efeitos da poluição; uma participação especial de Lima Duarte no início da trama, que reverbera nas ações de uma das protagonistas no restante dos episódios; e todos os personagens moradores de Arapós, que formam um grupo de figuras interessantíssimas – e assustadoras – encabeçadas por César Ferrário, Luciana Paes, Leonardo Medeiros Bella Piero.


BALANÇO FINAL

    Assim como na primeira temporada, os capítulos finais são eletrizantes, ágeis e intensos. Aqui, um dos ativistas é assassinado e a pergunta de quem mandou matá-lo ecoa de maneira angustiante as nossas mentes, sabendo que tal situação ficcional não está tão longe da nossa realidade. As sequencias de Leandra Leal a partir do crime são as melhores da atriz na série até então, em atuação. Entendemos a sua revolta.

    Com Medidas Provisórias que visam isentar empresas petroleiras do pagamento de impostos, CPIs que buscam criminalizar o trabalho feito pelas ONGs ativistas, explorações disfarçadas de investimentos, ativistas sendo mortos como forma de silenciamento e conflitos pessoais interessantes, Aruanas não cai na panfletagem e é uma das melhores séries da Globoplay, merecendo ser tratada como tal pela plataforma. Merece o play do telespectador, o seu deleite e a sua reflexão.

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